Blog - Os Papapinhões
Um lugar especial
Eu sempre ouvia falar, lia e via imagens da RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) Papagaios de Altitude, aqui de Urupena, Santa Catarina. Esta região alta, acima de 1.300 metros de altitude, é formada por uma mistura muito agradável de campos de altitude e florestas de araucárias em vários estágios de recuperação. Vindo de São Joaquim, entrei no acesso da RPPN e fui seguindo uma estrada de interior de mata que foi aumentando a expectativa à medida que subia e vencia as curvas ladeadas por árvores, xaxins e samambaias. Ao chegar na sede da reserva, que fica numa área de campo aberto consegui entender, em poucos segundos, tudo aquilo que me falavam deste lugar: trata-se de um refúgio perfeito para estudos das coisas da natureza, mas principalmente, relacionados aos papagaios e a cadeia alimentar do pinhão.
A sede, erigida com madeira de eucalipto vermelho por fora e pinus por dentro, é autossuficiente em energia elétrica provida por placas solares que permitem uma vida normal, semelhante à de uma casa urbana. Sem postes e fios, o lugar ganha mais encanto e harmonia e a água, como não poderia ser diferente, vem de uma vertente a pouca distância da casa e é de muito boa qualidade. Água, energia elétrica e lenha para o fogão, são dádivas da natureza daqui tornando o local sustentável e afinado com a proposta de oferecer boa condição para o trabalho com baixo impacto na natureza. Sem wi-fi, sem espelhos nos banheiros nem relógio na cozinha, internet 4G só em alguns locais fora da casa, fazem deste local um santuário para pesquisadores que se dedicam integralmente ao trabalho.
A mata está em um estágio de recuperação, contrastando positivamente com a maioria dos locais que conheço devido a um único fator: na reserva não tem gado de espécie alguma há mais de cinco anos. Isto torna o interior da mata diferente e mostra os estágios de recuperação que são interrompidos nas matas onde há gado, devido ao pisoteio e forrageamento. Aqui a brotação do andar de baixo da floresta, com a livre germinação de sementes de inúmeras espécies nativas, desenvolve-se naturalmente regenerando o ecossistema. Vassouras e bracatingas, por serem plantas pioneiras, dominam as bordas da mata e formam um ambiente de transição com o campo – o chamado ecótone, permitindo que a floresta se expanda muito lentamente sobre o campo. Como não há pastoreio pelo gado, o campo tem que ser roçado duas vezes por ano.
O silêncio daqui, devido à distância com o centro urbano da cidade de Urupema, é surpreendente. Levo algum tempo para me adaptar e integrar com os sons locais, produzidos unicamente por inúmeras espécies de aves, zumbidos de insetos, vento, estalos e ringidos de galhos da densa floresta e o chiado da chaleira do fogão, que não tem folga por aqui neste outono frio. Bandos de papagaios cruzam o céu fazendo uma algazarra animada quando vão dos dormitórios aos pontos de alimentação e vice-versa, parecendo mesmo que conversam animadamente enquanto se deslocam ou que querem agradecer a floresta pelos pinhões ou simplesmente quebrar o silêncio. Assim vim, vi, fotografei e comecei escrever sobre os Papapinhões.