As florestas de pinus
Ao longo do vale do Rio Silveira existem vários lugares que estão cultivados com extensas florestas de um pinheiro exótico conhecido popularmente por pinus. Trata-se de uma espécie que foi trazida de terras do hemisfério norte, lá do sul dos Estados Unidos e do norte do México, a partir do final da década de 1940. O objetivo da importação foi o de oferecer uma espécie que tivesse um desenvolvimento rápido e fornecesse matéria prima para as indústrias madeireiras e de celulose. No Rio Grande do Sul os plantios intensivos iniciaram na década de 1970, após a quase exaustão das florestas de araucária e das leis restritivas que foram implantadas na tentativa de evitar a extinção dos nossos pinheiros nativos – a araucária e o podocarpos (pinho-bravo).
O pinus gosta de solos pobres, ácidos e de áreas úmidas, como são os nossos campos de altitude; incentivos governamentais surgiram para estimular os plantios; leis restritivas e protetivas foram criadas para proteger as florestas nativas; a demanda de matéria prima continuava sempre crescendo. Estes fatores reunidos criaram as condições para o início da era do pinus por aqui, quando grandes extensões de campos naturais foram cultivadas com estes pinheiros de crescimento rápido, modificando a paisagem e o ecossistema complexo e milenar dos campos de altitude, quando uma diversidade de mais de 600 espécies de gramíneas e outras plantas, deram lugar a uma única espécie de pinheiro.
Hoje, grandes indústrias de processamento de madeira vivem exclusivamente da exploração desta espécie, criando uma cadeia produtiva que envolve do plantio a extração e beneficiamento, gerando muitos empregos e impactos que são absorvidos e minimizados se pensarmos que, não fossem eles – os pinus, provavelmente não existiria mais um pé de araucária, ou canela, ou canjerana, ou grápia, ou cedro, ou cerejeira, ou ipê e tantas outras espécies das matas que serviam de matéria prima e que agora são protegidas pelas leis ambientais.
Tudo tem um preço, e a utilização de madeira como matéria prima para um cem número de utilidades, é inquestionável e irreversível. Agora mesmo eu estou escrevendo esta crônica com o meu computador apoiado em uma mesa de madeira aglomerada, muito provavelmente feita com madeira de pinus. Olho pela janela e vejo uma obra que está sendo executada aqui perto e o tapume, as formas para o concreto e as tábuas para o piso dos andaimes, são todos feitos com esta madeira de pinus. Poderia aqui enumerar uma longa lista de subprodutos desta fibra de pinus, mas vou me restringir apenas a estes dois exemplos. Não há mais espaço para que se tenha pudores contra estas florestas, a menos que se descubra um outro material que substitua satisfatoriamente as fibras desta madeira. Um regramento sim, evitando plantios em áreas frágeis, nascente e margens de rios e arroios, deve ser mantido e fiscalizado pelos órgãos responsáveis. O pinus veio salvar a araucária, e assim o vejo e respeito hoje, apesar de, lá pelas décadas de 70 e 80, eu ter visto estas florestas como invasoras e destruidoras da nossa biodiversidade dos campos. Hoje compreendo sua utilidade, mas sem esquecer do seu preço. Assim como tudo.